SEXUALIDADE E AFETIVIDADE
A NATUREZA DO SER HUMANO
“Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança” (Gn 1, 26)
A partir da narração do livro do Gênesis, podemos compreender a natureza humana, passo necessário para compreendermos a sexualidade, a partir da vontade de Deus.
A primeira coisa que fica em evidência, é a diferença que existe entre os animais irracionais e o ser humano. Os animais vivem em função do seu instinto, na qual se realizam, quando tem aquilo que necessitam, em outras palavras, quando comem, bebem, se acasalam e descansam. Isso é suficiente para que tenham ‘felicidade’.
Já o ser humano não. Dê a alguém as mesmas coisas – comida, bebida, sexo e descanso – e mesmo assim, ele não ficará plenamente saciado. Isso porque somos mais especiais e mais complexos dos que os animais, a começar pela nossa estrutura: “O Senhor Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2, 7). Somos formados por um corpo (a imagem dos animais) e uma alma (a semelhança de Deus).
Muitas pessoas tentam descrever o ser humano, e ao fazer isso, geralmente evidenciam uma parte específica do homem, em detrimento as outras.
Por exemplo: Freud vai dizer que a força que move o homem, é justamente a sexualidade, a libido. Dessa forma, evidência o corpo humano, e negligencia a sua alma; Já Platão vai dizer que o que existe de mais elevado no homem, é a sua alma, capaz de absorver o conhecimento, mas que o corpo, porém, é como uma prisão. Evidência a alma, e negligencia o corpo.
A luz da vontade de Deus, a Igreja nos apresenta o ser humano como ele é: corpo e alma. Possuímos assim, características em cada um desses aspectos, que não se contradizem, mas que devem ser vividas unidas, para assim, nos levar a saciedade, ou em outras palavras, a felicidade.
No nosso corpo (o barro), vem todas as nossas faculdades sensitivas, como os sentidos, a afetividade e a sexualidade. Já a nossa alma, carrega outras faculdades, que é a vontade, a inteligência e a memória – são essas faculdades que nos fazem ser semelhantes a Deus, e tão diferente dos animais irracionais.
É por isso que, ainda que façamos tudo que os animais façam, eles conseguem ser plenamente satisfeitos seguindo os seus instintos e obtendo comida, bebida, acasalamento e descanso, ao passo que o ser humano pode ter tudo isso, porém ainda assim, vai faltar algo.
Isso porque que fomos criados por Deus e para Deus. Somente Nele é que compreendemos a razão da nossa existência, e só Nele, somos plenamente saciados.
HOMEM X MULHER
“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27)
Cremos que Deus deixou impresso na sua criação a sua vontade. Podemos dizer que é da vontade de Deus que os passarinhos voem, por que os fez com asas, capazes de os sustentar no céu. Ao analisar o ser humano, podemos compreender a vontade de Deus para nós.
Além das diferenças do corpo e da alma, o ser humano traz ainda a diferença entre o homem e a mulher. Essa diferença, envolve muitas áreas, antropológica, psicológica, emocional..., mas que não levam a divisão, mas sim, ao complemento.
Ainda nas Sagradas Escrituras, é dito que o homem não encontrou, entre toda a criação “uma auxiliar que lhe correspondesse” (Gn 2,20), e assim Deus fez a mulher, tirada de sua costela. Antes de tudo, ao tirar a mulher do lado do homem, demostra que ambos têm a mesma dignidade, mesmo possuindo suas diferenças. Essas diferenças vão ser complementares.
Quando questionado sobre o divórcio, a resposta de Jesus nos traz justamente para esse momento: “No princípio não era assim” (Mt 19,8) e nos aponta que é da vontade de Deus, que o homem se relacione com a mulher. Ainda não adentraremos sobre a questão do Matrimônio, mas podemos chegar a uma conclusão: o ser humano é um ser relacional.
Feito a imagem de Deus que é uno e trino – um só Deus em pessoas – vemos que essa comunhão que existe na Santíssima Trindade, é querida por Deus em nós, seres humanos. Por isso somos chamados a nos relacionar um com o outro, e é nesse momento que entra a afetividade e a sexualidade.
SEXUALIDADE E AFETIVIDADE
Vejamos o que o catecismo da Igreja nos diz sobre o nosso tema:
A sexualidade afeta todos os aspectos da pessoa humana, em sua unidade de corpo e alma. Diz respeito particularmente à afetividade, à capacidade de amar e de procriar e, de maneira mais geral, à aptidão para tecer vínculos de comunhão com os outros – CIC 2332
Assim, podemos compreender que a sexualidade nasce dessa vontade de Deus, de sermos seres relacionais, que criam vínculos um com o outro, e esse vínculo, começa a partir dos nossos afetos e sentidos.
Porém o catecismo continua dizendo que devemos viver a sexualidade com “limites de uma justa moderação” (CIC 2362). Isso porque, sendo seres corporais e espirituais, tudo que fazemos com o nosso corpo, afeta a nossa alma. E tudo que fazemos com a nossa alma, afeta o nosso corpo.
Por isso entender o nosso corpo, as nossas expressões, os nossos sentidos e afetos, nos fazem viver, antes de tudo, em equilíbrio conosco mesmo. É isso o que nos pede a virtude da castidade, o domínio pessoal de todo o nosso ser (CIC 2395).
Quando vivemos sem nos conhecer ou sem dominar os nossos instintos, somos dominados por ele, e assim, vivemos como os animais. É o que nos adverte o salmista dizendo: “Não sejais como o cavalo e o burro, que não tem entendimento e precisam ser controlados por rédea e freio” (Sl 32,9).
Dessa forma, Deus nos chama a viver a castidade, o conhecimento e o domínio dos instintos, dos afetos e sentidos, conforme a nossa realidade – solteiro, noivo, casado. O que nos faz lembrar que a dimensão mais forte da sexualidade, é justamente o ato conjugal (sexo).
Assim, o catecismo nos diz: “A sexualidade está ordenada para o amor conjugal entre o homem e a mulher” – CIC 2360.
A sexualidade, mediante a qual o homem e a mulher se doam um ao outro com os atos próprios e exclusivos dos esposos, não é em absoluto algo puramente biológico, mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal. Ela só se realiza de maneira verdadeiramente humana se for parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até a morte – CIC 2361
Dessa forma concluímos que a sexualidade é uma expressão de amor, que começa em nós, e chega ao outro. Da amizade à vida conjugal, chegando ao seu auge no ato conjugal, destinado justamente a vida no Matrimônio.
ATO CONJUGAL x SEXO
“O amor humano, quando vivido plenamente, se torna o reflexo do amor divino”
(Rafael Brodbeck)
“Baseando-nos na razão e na observação empírica, vemos que o propósito primário do sexo é a reprodução – não apenas o dar à luz, mas a criação da próxima geração da nossa espécie. É o que a Igreja chama de fim “procriativo” do casamento.
O propósito secundário, mais importante para nós do que para os animais inferiores, é social: criar laços de afeição e amor que haverão de se manter quando a faísca inicial entre as duas criaturas jovens e férteis, guiadas pelos instintos, já se houver apagado. Eis aí o que a Igreja chama de fim “unitivo” do casamento.
O seu terceiro propósito, e aliás o menos essencial, teria de ser a excitação e o prazer fugazes que a natureza ligou ao ato, de modo que tivéssemos uma boa razão para deixar a fadiga de lado e botar a mão na massa” (Manual politicamente incorreto do catolicismo, John Zmirak – Cap. 11-Sexo, sanidade e a Igreja Católica).
Esse é um belo resumo de como devemos enxergar o sexo, que vai de encontro tanto com a ciência, quanto da vontade de Deus, expressa por sua Igreja.
Tendo como fim procriativo e unitivo, e o prazer como algo que faz parte mas não é o essencial, o ato conjugal alimenta tanto o corpo como a alma, e leva o ser humano a plena realização da sua vocação, quando vivida sobre a Lei de Deus.
Lembremos do primeiro mandamento que Deus dá ao homem: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28). Isso nos aponta para o primeiro objetivo do ato conjugal: procriação. Deus compartilha com o ser humano, o seu dom de dar a vida. Assim, sobretudo a mulher, carrega essa dádiva, de participar da criação.
O ato conjugal se torna uma expressão de amor, que deriva da própria Santíssima Trindade, onde do amor do Pai que se doa todo ao Filho, e no amor do Filho que se doa todo ao Pai, é gerado o Espírito Santo. Da mesma forma, do ‘amor’ do homem e da mulher, é gerado uma terceira pessoa, o filho.
O segundo propósito do ato conjugal, é dita primeiro pelo Pai, que diz: “Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (Gn 2,24). Depois, elevando a união do homem com a mulher a Sacramento, Nosso Senhor Jesus Cristo afirma: “De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar” (Mt 19,6).
Esse é o segundo objetivo do ato conjugal: união. No Matrimônio, o homem e a mulher se tornam uma só carne, o que ocorre espiritualmente e corporalmente. Isso ocorre, sobretudo, na complementariedade, que chega ao auge no ato conjugal, onde chegam a de fato, se tornarem uma só carne.
Dessa forma o amor está condicionado a unir o casal, e a união é expressa na sexualidade. O amor está na vontade e no desejo de se doar todo para a outra pessoa, em um movimento recíproco. O prazer é como uma recompensa que Deus nos dá, para que essa missão – que é a procriação e a união – possa ser cumprida no casamento.
“O prazer no sexo é como a cobertura do bolo e seu propósito é fazer com que o “bolo” seja amado e não ignorado”
(D. Fulton Sheen)





0 Comentários